Instituto de Meteorologia esclarece fenómenos de vento intenso observados em Portugal

2011-11-08 (IM) Situações severas ou extremas de vento têm ocorrido em Portugal, potenciadas por situações de forte instabilidade associadas a superfícies frontais de maior atividade ou a depressões muito cavadas que afetam o território nacional.

Ultimamente, têm vindo a ser veiculadas notícias, de modo recorrente e em diversos meios de comunicação social, em que se refere a ocorrência de “mini-tornados” ou até de tornados, no nosso território, por ocasião desses episódios de vento muito forte. A primeira das referências é tecnicamente incorreta e a segunda carece de verificação cuidadosa.

Assim:

1. Tornados – caracterização sumária

A presença de um turbilhão de vento, por vezes muito violento, e que se pode tornar visível pela existência de uma coluna ou cone nebuloso invertido, que se estabelece da base da nuvem mãe para a superfície terrestre, pode constituir uma tromba de água (ou tromba marítima) ou um tornado (ou tromba terrestre). A designação é função da superfície sobre a qual a circulação se organiza e estabelece, merecendo a primeira designação, se tal acontecer sobre uma grande extensão líquida (como a superfície do mar ou de um lago), e a segunda se tal se verificar sobre o solo. Frequentemente, na sua circulação são arrastadas partículas de água da superfície líquida, ou poeiras e outros detritos da superfície do solo, o que poderá contribuir para tornar o turbilhão ainda mais visível.

A qualificação da intensidade deste tipo de fenómeno é, na atualidade, efetuada recorrendo à escala de Fujita Melhorada (EF, Enhanced Fujita), que compreende 6 níveis (EF0 a EF5) e se baseia na natureza dos danos produzidos para classificar o tornado quanto à sua intensidade (a comunidade científica discute, presentemente, a conveniência da criação de um sétimo nível, EF6). A escala é apresentada abaixo.

Calssificação / Intensidade do vento (rajada 3s, km/h)

EF0 105-137

EF1 138-177

EF2 178-217

EF3 218-266 (Foi o caso do de Tomar-Ferreira Zêzere a 7 de Dezembro de 2010)

EF4 267-322

EF5 >322

Esclarece-se que a intensidade de um tornado não é função da dimensão da sua nuvem-mãe, da largura aparente ou cor da respetiva coluna, da sua duração ou extensão da área afetada. Há tornados de “pequena dimensão” que se revelam mais intensos do que outros de “maior dimensão”. Neste sentido, se um fenómeno for classificado como tornado, só poderá ser qualificado pela escala apresentada, em função da natureza dos danos que produza, dada a habitual impossibilidade em efetuar medições diretas da intensidade do vento que lhe está associado. Deste modo, a designação “mini-tornado” carece de sentido e não deve ser aplicada.

2. Fenómenos de vento intenso em Portugal

Em Portugal, os episódios de vento muito forte estão maioritariamente associados a dois tipos de perturbação de muito pequena escala espaço temporal: a Supercélula e os Ecos em arco (estes devendo a sua designação ao tradicional aspeto que revelam em imagens de radar meteorológico). Qualquer destes tipos de perturbação pode gerar, para além de tornados – e até com maior frequência relativa do que estes –, um outro tipo de fenómeno de vento muito forte.

Este fenómeno designa-se genericamente por downburst (nomenclatura anglo saxónica).Corresponde a uma corrente de ar com movimento descendente, organizado quase na vertical, que se intensifica na descida para o solo e que, após o contacto com este, se propaga como vento horizontal. Frequentemente, dadas as caraterísticas do ambiente sinótico envolvente, a corrente de vento muito forte tende a estabelecer-se e propagar-se sobre o solo, preferencialmente ao longo da direção e sentido do movimento da própria nuvem mãe. Por este facto, a zona mais afetada pode ser relativamente estreita e apresentar semelhanças com o trajeto de destruição típico de um tornado. No entanto, trata-se de dois fenómenos essencialmente diferentes e que produzem tipos de danos distintos.

Ambos os tipos de fenómenos podem ocorrer em ambientes sinóticos que, com alguma regularidade, se fazem sentir sobre o território nacional. Inclusive, podem coexistir associados à mesma perturbação. No entanto, as observações comprovam que o downburst cuja circulação produz ventos com intensidade que pode exceder os 200 km/h – é bastante mais frequente do que o tornado. Este, em última análise, só pode ser inequivocamente identificado pela visualização do típico cone nebuloso invertido que se organiza da nuvem mãe para a superfície e pela natureza dos danos causados que, como se referiu, é muito diferente da devida a um downburst.

3. Vigilância no IM

No Instituto de Meteorologia, à semelhança da estratégia seguida noutros países europeus em serviços congéneres, está em curso trabalho no sentido de melhorar, na medida do técnica e cientificamente possível, a capacidade da previsão deste tipo de fenómenos. Neste contexto, está a atuar-se a dois níveis. Um primeiro nível, com o uso de ferramentas baseadas em modelos de previsão numérica do tempo, destinadas a permitir o reconhecimento (com maior precisão e antecedência de algumas horas), das regiões onde este tipo de fenómenos possa vir a ocorrer, com maior probabilidade. Um segundo nível, em que se complementam aquelas ferramentas, com avisos específicos baseados em observação radar. Estes últimos em fase de desenvolvimento no IM, permitirão no muito curto prazo identificar áreas de menor dimensão onde perturbações associáveis a fenómenos de tempo severo estejam a desenvolver-se.

Não obstante os esforços de melhoria referidos, continuarão a fazer-se sentir dificuldades na previsão e alerta precoce deste tipo de fenómenos, enquanto tais, à semelhança do que se verifica nos outros países europeus que, como Portugal, têm uma baixa prevalência deste tipo de ocorrências.

IM, I.P., Novembro de 2011

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