[ história do quartel dos bombeiros municipais]

O quartel dos Bombeiros Municipais de Tomar foi inaugurado a 3 de Outubro de 1971, quase cinco décadas depois da corporação ter sido oficialmente criada em Tomar. Dificuldades, sobretudo de ordem financeira, inviabilizaram a concretização dos projectos iniciais da câmara municipal. A espera foi longa, mas a população e os defensores da causa foram persistentes. A boa vontade de todos, a generosidade de muitos e a coragem de todos, conseguiu erguer a obra que hoje é uma referência na cidade e no concelho.

A casa ansiada

O 3 de Outubro de 1971, dia de inauguração do novo quartel, foi celebrado de forma entusiástica por todos os que se envolveram numa luta de anos para conseguir cumprir uma obra há muito desejada pelos Bombeiros Municipais de Tomar.

Aliás esse desejo é longínquo, desde logo anunciado aquando da sua criação oficial, no início da segunda década do século XX. Entrevistado pelo jornal “O Templário”, nos idos anos de 1926, o então vereador responsável pela área, José Gonçalves Ribeiro, tendo sido também um dos responsáveis autárquicos pela instalação do Corpo de Salvação Pública, anunciava a intenção da Comissão Executiva em avançar com a construção de um quartel.

“O que há sobre os bombeiros? Interrogámos.

– Há o «Corpo de Salvação Pública» que conhece e para o qual projecta a Comissão Executiva construir um quartel, por as actuais instalações serem insuficientes. O projecto está a ser elaborado.”

Excerto da entrevista do vereador José Gonçalves Ribeiro, jornal “O Templário”, 1926


No entanto, o desejo de ter “casa nova” e apropriada às necessidades e desempenho dos soldados da paz nabantinos foi demasiado precoce. As dificuldades financeiras, aliadas a outras necessidades mais prioritárias, como a aquisição de fardamento e material para combater as adversidades, impuseram-se à vontade dos governantes e dirigentes.

A construção de um quartel de raiz foi sendo ultrapassada por outras questões mais urgentes ao longo dos anos. E nesse espaço de tempo o Corpo de Salvação Pública de Tomar foi sendo obrigado a mudar de “casa”, procurando o melhor espaço para recolher o seu material.

Em 1922, altura da sua criação, começou por ocupar a antiga cadeia da cidade, situada nos Paços do Concelho, com entrada pelas traseiras do edifício do município. As instalações eram insuficientes e mal davam para albergar os primeiros dezoito homens que faziam parte da corporação, assim como o material ainda exíguo que ali existia.

Só dez anos mais tarde, em 1932, os bombeiros de Tomar conseguiram novo alento, com a transferência para novas instalações provisórias, desta vez situadas na Rua Sacadura Cabral nº 1, situada junto à Várzea Pequena. Dois anos mais tarde voltam a fazer mudanças. Em Julho de 1934 o Corpo de Salvação Pública é mudado para a antiga Rua da Graça, hoje conhecida por Avenida Cândido Madureira, para um armazém cedido a título de empréstimo por um período de dois anos, por Joaquim Rasteiro da Matrena. O quartel fica então situado onde hoje podemos encontrar o edifício da Santa Casa da Misericórdia. E foi ali que se mantiveram até conseguir finalmente, quase quarenta anos depois, inaugurar as instalações construídas de origem, que agora assinalam o 40º aniversário.

No entanto, as condições não eram as melhores, como nos descreve Joaquim Duarte, um dos principais responsáveis pela angariação de verbas para o novo quartel nos jornais locais, no seu livro “Uma Página de Tomar”, editado em 1971 – Era um velho armazém emprestado, graciosamente, por alma caritativa (…) onde até o material era recolhido em precárias condições de conservação, de manutenção, de limpeza e de bom estado de funcionamento. O pouco que havia enchia por completo o acanhado espaço. Os restantes recantos eram aproveitados para o gabinete do Comando, secretaria, casa da guarda, acomodações para o piquete, sala do bombeiro e instalações sanitárias. A organização interna, as possibilidades de melhoria e de salubridade, ainda eram mais reduzidas do que o espaço cedido por favor e a título de generosidade. (…) A cedência graciosa de dois anos prolongou-se por mais 35…

O então “quartel” era descrito como desconfortável e onde tudo faltava para conseguir dignidade na nobre missão dos bombeiros nabantinos. Os exercícios e treinos dos soldados da paz eram realizados em plena rua, à vista de todos e sob qualquer adversidade climatérica.

No tempo que medeia o primeiro desejo expresso pelo então vereador Jorge Gonçalves Ribeiro e a concretização do mesmo, sucedem-se uma sucessão de pedidos dos comandantes da corporação, a que corresponderam uma sucessão de promessas dos responsáveis autárquicos. Embora não exista prova documental, Joaquim Duarte conta que em 1932 existiu um ante-projecto que situava o quartel dos bombeiros junto à estação dos Caminhos de Ferro, intenção que não se concretizou por ter ali sido colocada a Abegoaria Municipal. Depois de serem pensados outros lugares, poucos anos depois a hipótese de localização foi transferida para as traseiras dos Paços do Concelho, nos terrenos do antigo Mercado (actualmente parque de estacionamento coberto). O novo ante-projecto teria sido elaborado pelo Arquitecto Rosa Mendes, mas o mesmo acabou por não ter viabilidade e perdeu-se no tempo. Mais uma vez, a falta de disponibilidade financeira influencia a escassez na tomada de decisão, até que chegamos a 1954, altura em que surgem os primeiros sinais de que a intenção dos governantes irá concretizar-se.

Em 1954 é formada uma comissão com o objectivo de se proceder à escolha do terreno para as futuras instalações. O Comandante da corporação Alferes Manuel Maria Careto, o Presidente da Câmara Tenente Coronel Fernando Marques de Oliveira e os vereadores Carlos Tavares e Carlos Silveira compõem a dita comissão e começam a trabalhar no sentido de encontrar a melhor localização. Entre Janeiro e Abril desse ano, o chefe do município envia diversos ofícios à Inspecção de Incêndios do Sul e ao Comandante do C.S.P. de Tomar, solicitando informações sobre as condições que seriam necessárias à construção do quartel, assim como pedindo conselho sobre a sua futura localização.

No Arquivo Municipal de Tomar também podem ser consultados, por exemplo, alguns ofícios do Tenente-Coronel Fernando Oliveira, onde é expresso o desejo de “proceder à construção de um quartel”.

Num dos ofícios arquivados, dirigido ao Director do Colégio Nun’Álvares de Tomar a 11 de Junho de 1954, o autarca reconhece as carências existentes na corporação nabantina – “o Corpo de Salvação Pública luta com falta de espaço para resguardar, devidamente, o seu material tanto que algum já permaneceu por aqui e por ali, visto não caber no actual quartel“. Na carta, o Tenente Coronel Fernando Marques e Oliveira anuncia a intenção de construir as novas instalações, mas pede em nome da “boa vontade” e do “espírito de colaboração” para que os colégios emprestem as “velhas” instalações com o fim de guardar algum material dos bombeiros.


Ofício do Presidente da Câmara Municipal de Tomar dirigida ao Director do Colégio Nun´Álvares

Documento existente no Arquivo Municipal de Tomar

Na segunda carta, que surge um mês depois, em Julho de 1954, o presidente do município dirige-se a Alfredo Fernandes, de Oleiros, proprietário dos terrenos onde hoje está construído o quartel, indicando-lhe os vários benefícios que a autarquia estava já a desenvolver na zona, com vista a estender a cidade na margem sul do rio – “Quer dizer, a Câmara está valorizando o terreno de V. Ex.ª à custa de pesados encargos, tanto assim que só na avenida acima referida (Rua Marechal Carmona), vai despender cerca de 800 contos!“. O autarca lembra ainda o proprietário que a câmara poderia expropriar uma faixa de 50 metros ao longo dos novos arruamentos ou exigir mais valias no acto da venda dos terrenos, mas não era isso o que o município pretendia – “se até agora a Câmara só tem dado facilidades, também é justo que os particulares o reconheçam e sejam generosos para com a mesma, naquilo que lhe interessa como melhoramento de interesse público. Nesta ordem de ideias venho solicitar de V. Ex.ª a cedência do terreno necessário à construção do Quartel dos Bombeiros em local já do seu conhecimento e que em nada o prejudica, visto não ser ali permitida a construção“.


Ofício do Presidente da Câmara Municipal de Tomar dirigida a Alfredo Fernandes

Documento existente no Arquivo Municipal de Tomar

Terá sido pelos “alertas” ou pela “boa vontade”, mas a verdade é que Alfredo Fernandes decidiu, em sequência deste ofício, ceder os terrenos pretendidos pela autarquia.

A 13 de Dezembro de 1954 a proposta para a localização do novo quartel é apresentada ao executivo da Câmara pela comissão e, a 24 de Dezembro os terrenos de Alfredo Fernandes, situados nas proximidades da sub-estação “e que gratuita e gentilmente este senhor cede para tal fim”, são aceites através de deliberação votada unanimemente.


Foto da planta dos terrenos onde ficará situado o futuro quartel dos bombeiros

Documento existente no Arquivo Municipal de Tomar

Apesar do sinal ser já claro de que o novo espaço dos bombeiros iria ser uma realidade, o sonho ainda iria demorar quase vinte anos para ser concretizado.

Vontade da população ergue novo quartel

Os terrenos onde ficará instalado o novo edifício dos bombeiros são cedidos ao município em 1954, mas nos anos que se seguem existe um novo vazio nas intenções de construir o novo quartel. A ausência de respostas e a falta de capacidade financeira da autarquia tornaram-se numa angústia para os defensores da nova obra. A decepção era evidente, espelhada sobretudo nalguns artigos publicados na imprensa local, que indagava sobre a falta de acção.



Arquivo jornal “O Templário” 1963

E é precisamente na imprensa local que novos sinais são dados com vista à construção do quartel. À falta de respostas do governo do município, iniciou-se uma campanha de recolha de donativos no jornal “O Templário”, a que respondeu a generosidade do população e das indústrias locais.

Nos arquivos da autarquia, ao longo da década de 60, são inúmeros os ofícios que se podem encontrar, com o envio de cheques para o fundo destinado à construção do novo quartel. A título de exemplo, podemos encontrar uma carta da Companhia de Fiação de Tomar que acompanha o envio de um cheque de 15.000$00 (quinze mil escudos) destinados à nova construção.

Entretanto começam a surgir mais novidades no início da década de 60 do século XX, já com Aurélio Ribeiro a ocupar o cargo da presidência da câmara municipal. A 22 de Dezembro de 1963, o jornal “O Templário” publica uma notícia onde é anunciado que o então comandante dos bombeiros teria entregue na câmara o projecto e a maquete do novo quartel, com a assinatura do tomarense Arquitecto João Pedro Mota Lima. Segundo o jornal, a maquete estaria em exposição na tipografia “A Gráfica”.

As ofertas de donativos e de trabalho foram-se sucedendo. Raul dos Santos Coito, tomarense com nome consagrado no sector da engenharia civil, elaborou os cálculos necessários para a construção do quartel nos 2300 hectares cedidos para o efeito, e ofereceu-os à autarquia. No início de 1964, o mesmo semanário nabantino, chegou a anunciar o lançamento da primeira pedra para a obra do novo edifício, o que não chegou a acontecer.

Apesar do empenhamento de vários tomarenses, a construção do novo quartel dos bombeiros voltou a cair no esquecimento nos anos que se seguiram. Apenas se liam os lamentos na imprensa local, sobretudo no início de cada ano, altura em que se assinala o aniversário do C.S.P. de Tomar.

É só em 1968 que a notícia sobre o início das obras volta a figurar nas páginas dos jornais. A meados de Fevereiro desse ano, a imprensa local anuncia que a cerimónia do lançamento da primeira pedra para o dia em que Tomar comemorava os 808 anos de existência, a 1 de Março.


Arquivo jornal “Cidade de Tomar” 1968

O facto é que a cerimónia anunciada teve um novo adiamento, mas desta vez de poucos dias, vindo a acontecer no dia 10 desse mesmo mês, abençoada pelo responsável pela paróquia local, Reverendo Vitorino Nunes do Carmo, e assinalada pelos aplausos da população, foguetes no ar e pela música das bandas da cidade. E a seguir? A pedra lá ficou, entre oliveiras, perto do agora velho cemitério, e regressou o silêncio…

É só em 1969 que o assunto volta à agenda política da câmara e a animar as gentes do concelho. Apesar de existirem poucos documentos e da escassez de factos relatados nas notícias da época, existem três nomes que se destacam neste processo final da construção do quartel. Isso mesmo é relatado pelo tomarense Joaquim Duarte no seu livro “Uma página de Tomar” (editado para a inauguração do novo quartel dos bombeiros). Um desses nomes é o do próprio autor que, como explica, se atribui a tarefa de estabelecer os contactos certos para terminar a tarefa. É Joaquim Duarte, que depois de se comprometer com o presidente da autarquia, contacta os dois construtores civis tomarenses radicados em Lisboa, Manuel Ribeiro e Fernando Graça da Silva, para que assumam a empreitada – “A 2 de Maio desse mesmo ano (1969) reunimo-nos num almoço em Vila de Rei (…). Foi nesse momento feliz que se ajustaram as condições e últimos acordos para a construção do novo quartel dos Bombeiros de Tomar“, conta.

O acordo foi estabelecido e oficializado mais tarde, a 8 de Julho, em sessão de câmara. O protocolo de entendimento foi estabelecido com base nas premissas estabelecidas pelos dois construtores tomarenses em carta enviada à autarquia:

Os abaixo assinados, naturais do concelho de Tomar e normalmente a residir em Lisboa, conhecedores das dificuldades materiais que a Câmara a que V.Exª. muito dignamente preside enfrenta, no que concerne à construção do novo quartel dos Bombeiros Municipais; compreendendo, por outro lado, que o Corpo de Salvação Pública tem jus a uma sede mais condigna e mais adequada, vêm livre e espontaneamente informar V. Ex.ª de que se prontificam a construir, em curto prazo, o referido quartel, de harmonia com o projecto, já elaborado e aprovado, nas seguintes condições:

1ª – Os signatários, em colaboração com a Câmara, assumem a direcção administrativa dos trabalhos;

2ª – A Câmara aplicará as verbas atribuídas por ela, pelo Estado e os subsídios concedidos pelos particulares;

3ª – Serão criadas pelos Bombeiros e Juntas de Freguesia comissões destinadas a angariar fundos que poderão ser representados em dinheiro ou em materiais de construção tudo se diligenciando para que o montante destes fundos corresponda à necessidade e utilidade do melhoramento e testemunhe o sentimento bairrista e de colaboração da população do concelho de Tomar;

4ª – A Câmara assume a responsabilidade oficial de execução das obras considerando-se como actuando de conta do Município os trabalhadores nela ocupados, para efeitos de seguro e abono de família e outras isenções de carácter social;

5ª – Deve esclarecer-se que a Câmara organizará, através dos Bombeiros, Juntas de Freguesia e outras instituições, peditórios destinados ao custeamento da obra, não só na cidade e no concelho como também fora dele, nomeadamente junto dos muitos tomarenses que residem em Lisboa;

6ª – Os peditórios só poderão considerar-se concluídos depois de uma reunião conjunta das várias comissões, dos signatários e da vereação, reunião em que tal assunto seja discutido em todos os seus aspectos e pormenores;

7ª – A Câmara deverá diligenciar no sentido de obter o cimento necessário, através do Comissariado do Desemprego, tendo em vista a economia disso resultante;

8ª – Os transportes a efectuar dentro do concelho serão feitos pelas camionetas da Câmara;

9ª – A contabilização das receitas e despesas da obra será feita pela Câmara e controlada pelos signatários;

10ª – Esgotadas todas as verbas, os trabalhos prosseguirão até final e sem interrupção por força de donativos da nossa parte.

11ª – Tudo o que aqui se não encontre estipulado ir-se-á resolvendo entre nós e V. Ex.ª dentro do espírito que preside a esta nossa disposição;

Aceites que sejam por V. Ex.ª esta nossa colaboração e oferta, os trabalhos serão iniciados logo que V. Ex.ª o considere conveniente.

(conteúdo da carta enviada por Manuel Ribeiro e Fernando Graça da Silva a 3 de Julho de 1969)



Ofício de Manuel Ribeiro e Fernando Graça da Silva enviado à Câmara Municipal de Tomar

Documento existente no Arquivo Municipal de Tomar

A câmara aceita as condições impostas pelos dois benfeitores, apenas fazendo a salvaguarda de que a direcção administrativa e técnica da obra, como era de lei, teria que pertencer à autarquia e decide entregar a obra, por adjudicação directa, à dupla tomarense. As obras do novo quartel têm início a 14 de Setembro do mesmo ano.

As obras vão decorrendo a bom ritmo e vão sendo acompanhadas pelo olhar atento dos jornais, que continuam a divulgar os donativos. Vão-se verificando diversas ajudas. Em mais um exemplo, a Fábrica de Mosaicos de Santa Iria, sedeada em Tomar, decide oferecer todos os mosaicos necessários à execução de obra, o que significava um investimento de dezenas de contos.


Arquivo “O Templário” 1970


Arquivo “Cidade de Tomar” 1970


Angariação de donativos “Campanha do Ferro e do Cimento” – Arquivo “Cidade de Tomar” 1970

Com a estrutura do novo quartel já erguida, os dois construtores beneméritos decidem assinalar o momento com um almoço que reúne várias entidades do concelho. A chamada “Festa do Pau de Fileira” realiza-se a 28 de Junho de 1970, já nas novas instalações ainda inacabadas, e volta a dar visibilidade nos jornais à grande obra que está a ser realizada para benefício dos soldados da paz nabantinos.


Arquivo “O Templário” 1971

E depois de tantos de anos de espera e de tantas dificuldades financeiras que limitaram a acção e decisão do poder local, finalmente chegou a data ansiada por tantos. A inauguração do novo quartel do Corpo de Segurança Pública de Tomar realizou-se a 3 de Outubro de 1971.


Arquivo “Cidade de Tomar” 1971


Arquivo “O Templário” 1971

A data foi assinalada com pompa e circunstância. Com a presença de membros do governo central, como o Ministro do Interior e o Secretário de Estado do mesmo ministério, Governador Civil de Santarém e demais entidades, a festa é descrita como um momento emotivo, tanto para os bombeiros, que há muito tempo aguardavam, assim como para a população que finalmente assistia à inauguração da obra ansiada.


Arquivo “Cidade de Tomar” 1971


O momento é também assinalado com uma cerimónia que destacou 22 bombeiros nabantinos, condecorados com Medalha de Prata e Medalha de Cobre por comportamento exemplar. A proposta foi aprovada pelo executivo da câmara e cumpriu-se no dia da inauguração




Proposta do Comandante do C.S.P. para as condecorações no dia da inauguração do novo quartel

Documento existente no Arquivo Municipal de Tomar

O quartel dos Bombeiros – Uma obra digna de valorosos obreiros

Depois de várias atribuições, muitas dificuldades e teimosas incertezas, possuímos um dos melhores quartéis de Bombeiros de Portugal, senão o melhor, segundo a autorizada afirmação dum ilustre membro do Governo.

Situado numa das mais belas zonas da cidade, precisamente onde começa a urbe nova, valorizou um dos principais e mais atraentes centros de Tomar.

A dois passos do edénico rio Nabão, no local mais buliçoso, animado e concorrido devido à vizinhança do Mercado Municipal, fica enfileirado com a igreja de Santa Maria dos Olivais, proporcionando um interessante confronto e harmonioso contraste entre a arquitectura moderna de linhas rectas e o rendilhado, pormenorizado e meticuloso estilo gótico, testemunho da ataviada arte dos antepassados de há muitos séculos.

Começado em 14 de Setembro do ano de 1969, a sua construção durou pouco mais de ano e meio. Feita a remoção de 1500 metros cúbicos de terra, cresceu rapidamente um soberbo edifício onde se aplicaram 400 toneladas de cimento, se meteram 40 toneladas de ferro e onde se empregaram 8100 dias de trabalho.

Os dois corpos do edifício estão separados por uma ampla e explêndida parada, de 855 metros quadrados, em cujo topo norte se encontra a casa-escola com 13 metros de altura.

O corpo de rectaguarda é formado pelo parque de lavagem e lubrificação de automóveis com a área de 330 metros quadrados e pela casa do guarda. Esta, ao gosto da mais franca simplicidade, é airosa e bastante confortável com as suas duas salas assoalhadas, cozinha e quarto de banho. As rasgadas janelas enchem-na de ar, banham-na de luz e proporcionam-lhe a maior higiene e salubridade.

O corpo da frente, esbelto magnífico, é que identifica o quartel dos Bombeiros, dando-lhe classe e imponência. Nele se encontra, no primeiro piso, o parque de viaturas com 308 metros quadrados, cujo gracioso pavimento de mosaico cerâmico com pitões é perfeitamente adequado ao fim a que se destina Para ambos os lados se escancara em largos portões de fácil manejo, permitindo o escoamento instantâneo do maior número de socorros, logo que seja dado o primeiro alarme.

Contíguas a este parque de viaturas estão a central telefónica e duas arrecadações. Uma, de 54 metros quadrados, para o material pronto a actuar e outra, de 20 metros, para pequenos utensílios.


Novo quartel antes da inauguração em 3 de Outubro de 1971

No seguimento deste piso, com ligações fáceis para o parque de viaturas, para a rua e parada, existe um complexo de instalações necessárias e indispensáveis ao exercício da vida quotidiana da Corporação de Bombeiros, compreendendo um posto clínico com sala de observações e pequenas intervenções cirúrgicas e a sala de espera; o dormitório para o pessoal de serviço; balneários com numerosos chuveiros e instalações sanitárias; uma sala de convívio com 100 metros quadrados e dois gabinetes com ligação interior, respectivamente para o 1º e 2º comandantes. Todas as dependências são revestidas com materiais adequados às funções normais e aplicações próprias.

Ao centro deste corpo destaca-se, com majestade, a entrada principal, a condizer com a elegância do estilo. Um espaçoso peristilo anuncia a grandiosidade sóbria do edifício e dá acesso ao primeiro andar por intermédio duma soberba escadaria de mármore. Ao pisarmos o último degrau, encontramo-nos num átrio de 100 metros quadrados, banhado de claridade. A luz jorra através da vítrea e translúcida divisória que o separa da varanda. Esta, num jeito envolvente, corre ao longo de quase toda a frente e do topo sul do corpo principal do quartel dos Bombeiros. Debruçando-se com intimidade sobre o Nabão e beijando a preciosa relíquia da parte antiga da cidade, oferece-nos o deslumbrante panorama formado por um anfiteatro gigantesco, extraordinário em beleza, coberto de espesso arvoredo, salpicado de santuários e coroado pelo arrogante Castelo dos Templários.

Por esta varanda sobe-se para a torre que, com os seus 17 metros de altura, imprime garbo e com superioridade ao edifício tornando-o característico.

Regressando ao átrio vemos, à nossa direita, o salão nobre com 200 metros quadrados, para sessões solenes, festas e outras reuniões de carácter selecto e grave; à nossa esquerda, abre-se um corredor que nos conduz à Secretaria, ao bar e aos lavados cujas instalações sanitárias foram escolhidas entre as mais modernas. À nossa frente, alarga-se um convidativo terraço com 270 metros quadrados que domina a vasta parada central.

É este o quartel dos Bombeiros em Tomar.

Excerto de “Uma página de Tomar” de Joaquim Duarte, editado em 1971

Os números do novo quartel

48 foi o número de anos que demorou a concretizar o sonho de construir instalações de raiz
14 de Setembro de 1969
foi o dia em que se iniciaram as obras
Foram removidos 1500 metros cúbicos de terra
Usaram-se 400 toneladas de cimento e 41 toneladas de ferro
Foram precisos 8100 dias de trabalho para executar a obra
A parada situada entre os dois edifícios tem 855 metros quadrados
A torre mede 17 metros de altura
3000 contos, contas redondas, foi quanto custou o novo quartel
478 contos foi o valor pago em salários dos trabalhadores
As toneladas de cimento, areia e cascalho usados custaram 434 contos
O ferro usado custou 225 contos
141 contos foi o valor gasto em canalizações
120 contos para pavimentos, 108 contos para pintura e 133 contos para a electrificação do edifício foram os restantes valores gastos para erguer a nova obra.
22 bombeiros tomarenses foram condecorados no dia da inauguração do quartel
3 de Outubro de 1971 foi o dia da inauguração

Depois de tantos números necessários para construir o quartel dos bombeiros de Tomar, sobra a obra. O edifício continua a ser uma referência e emblemático na vida dos bravos soldados nabantinos, que aqui se mantém em alerta, quarenta anos depois.