[ história dos bombeiros de Tomar ]

Bombeiros Municipais de Tomar – A história

Antes de chegarmos à existência dos bombeiros em Tomar, numa história que peca por falta de vários elementos e registos, mas que mesmo assim aqui será desenvolvida, importa perceber a evolução dos bombeiros no território nacional.

A sua acção terá já mais de seis séculos de história. Data de 1395 a carta régia de D. João I, onde o Rei dava resposta a vários pedidos do Senado da Câmara de Lisboa, estabelecendo as primeiras regras escritas sobre as medidas a tomar, tanto na prevenção como no combate dos incêndios que ocorriam em Lisboa. A carta régia estabelece que os pregoeiros da cidade avisassem os habitantes durante a noite para que cuidassem do fogo nas suas casas. Era também ordenado que, em caso de fogo, “todos os carpenteiros e calafates venham aaquel lugar, cada huũ cõ seu machado, pr auerẽ de atalhar o dito fogo: E outº ssi todas as molheres  acodirem, tragam cada huã seu cantaro ou pote pª carretar auga pª apagar o dito fogo; E outº ssi por muitas açudem e vêem a elo pª Roubar, acordaste que Cem corretores ha na dita cidade cheguẽ hi cõ suas armas, pª auerem de guardar se assi de Ribarẽ pª atalhar o dito fogo, e se nõ fazer mayor dagno esse concelho, nẽ outº nenhuũ, nõ seja tehudo fazelas, pois se faz por prol comunal”. E sob as ordens de D.João I estava assim criado o primeiro grupo de homens que fizeram frente ao fogo em Lisboa.

Seguem-se vários anos sem que hajam registos de actividade ou novas normas estabelecidas para a constituição destas corporações, inicialmente apenas constituídas por homens, empenhados na sua protecção e na dos outros. No entanto, sabe-se que em 1513, no Porto, foram contratados fiscais para verificarem se o lume dentro de casa era apagado durante a noite. Já em 1612, a Câmara do Porto decidiu fornecer machados aos carpinteiros para que estes conseguissem combater os incêndios com maior eficácia. Enquanto isto, em Lisboa, no início do século XVII foram adoptadas medidas para o controlo do fabrico e venda de pólvora. Anos mais tarde, em 1646, durante o reinado de D. João IV, a Câmara de Lisboa foi também autorizada a adquirir escadas, varas com “seis palmos de comprido” e 200 “calões” de couro para transportar a água. E à semelhança do que acontecia já em Paris, o Rei deu ordens para que fosse atribuído um salário “conveniente” aos homens nomeados para o serviço. Ainda no mesmo século, existem documentos que demonstram a compra à Holanda de diverso material necessário ao combate dos fogos na capital. Em 1683 foi publicado o primeiro “Regulamento do pessoal que, por obrigação, deveria acorrer aos incêndios”.

E enquanto em Lisboa se iam decidindo medidas para o combate às chamas, no resto do país, com excepção do Porto, pouco se sabe sobre iniciativas destinadas ao combate a este flagelo.

Os primeiros registos da expansão dos serviços de bombeiros surgem no final do século XVIII, em Viana do Castelo, Coimbra, Setúbal, Lamego, Braga e Guimarães. Através de decisão régia ou das câmaras locais, é determinada a compra de diverso material e a organização de homens responsáveis pelo combate ao fogo sempre que necessário. Eram mesmo previstas penalizações para quem não cumprisse com as obrigações que lhe tinham sido destinadas.

É já no século XIX que se nota um maior desenvolvimento dos serviços de bombeiros um pouco por todo o país. Os municípios ganham maiores preocupações com a prevenção dos incêndios. Disso é prova o decreto de 16 de Maio de 1832 que estabelece como uma das competências do provedor do concelho (cargo que corresponde ao do actual presidente da câmara municipal), no desempenho das suas obrigações como superintendente da polícia, “evitar os incêndios, fazendo visitar as chaminés e fornos”. Enquanto Lisboa e o Porto constituíam os seus grupos organizados, nos vários municípios do país davam-se os primeiros passos para o início de um esforço colectivo, que teria como missão combater o mal que assolava as populações.

carro alegorico bombeiros

Carro alegórico alusivo aos Bombeiros

Tomar, [inícios do séc.XX]

Photographia Silva Magalhães – Colecção Silva Magalhães

Arquivo Fotográfico Silva Magalhães

 

 

Município de Tomar adopta as primeiras medidas

Os “terríveis” incêndios que atingiram as vizinhas Golegã e Torres Novas “acordaram” as preocupações do reino. Os fogos ali ocorridos em meados do século XIX (1842) levaram a que a Rainha Dona Maria II ordenasse que todos os municípios do país adoptassem as medidas necessárias para combater o flagelo. As ordens reais foram ouvidas no município de Tomar, que logo terá tratado de adoptar algumas medidas. Começou por pedir informações à câmara de Lamego e durante a constituição do processo, a autarquia deliberou contactar a Companhia de Seguros Fidelidade, responsável pela maioria dos contractos de seguros feitos às habitações da cidade, convidando-a a comparticipar na aquisição de uma bomba e na criação da Companhia de Socorros de Incêndios da cidade (deliberação de 10/01/1843). Alguns anos depois, em 1858, a autarquia tomarense decide comprar duas bombas para o combate de incêndios, contando com a comparticipação de trinta mil réis provenientes da companhia de seguros. Ainda existiu uma tentativa de obter fundos por parte da Bonança, mas a companhia negou-se, alegando que apenas tinha três prédios rústicos assegurados. As bombas ficaram sob inspecção e guarda da câmara municipal. No entanto, a Bonança viria a comparticipar a aquisição de uma bomba de incêndios, anos mais tarde, em 1966, com a oferta de 35$000 reis. Na altura, a Fidelidade ofereceu 50$000 reis.

O tema “incêndios” foi ganhando importância nas decisões administrativas e sociais da cidade. Em 1880 surge, pela primeira vez, o pelouro “Obras Públicas e Incêndios” comandado pelo vereador António Augusto Macedo.

Apesar da determinação municipal, foram as indústrias instaladas na região, as primeiras responsáveis pelo surgimento dos primeiros grupos de homens organizados que faziam frente ao fogo e que assim o impediam de destruir as instalações. É desta forma que se assiste à criação em Tomar do primeiro serviço competente para o efeito, o Corpo de Bombeiros Privativos da Real Fábrica da Fiação (1881). Foi este o grupo que acabou por fazer frente às chamas que em 1883 destruíram praticamente todas as instalações da fábrica. A notícia do facto foi reportada no jornal “A Verdade”, do qual se faz eco nos “Anais do Município”: A fábrica “estava segura em 111 companhias contra incêndios em 300 contos. Na noite de 29 de Agosto de 1883 um incêndio destruiu-a completamente.

O incêndio começou na parte norte do corpo principal do Edifício. Julga-se que causado por faíscas provenientes do atrito de um veio. Comunicou-se rapidamente a todo o andar superior e com tal intensidade, que foi completamente impossível atalhá-lo, passando, em pouco mais de uma hora, aos dois andares inferiores. Esta parte do edifício ficou completamente destruída.

Os socorros municipais acorreram prontamente e juntos com os da Fábrica, o Regimento de Infantaria nº 11 e muitos populares, obstaram a que o fogo se propagasse para a oficina de tecelagem, engomadoria, tinturaria bem como para a casa da máquina a vapor e respectivas caldeiras.

Do lado sul salvou-se o escritório e armazéns de depósitos de manufacturas e materiais.

Também se salvou a matéria-prima, por a casa onde é o seu armazém ter tecto de abóbada.

Também ficou intacta a Casa do Branqueio e Enxugo, onde existia grande quantidade de lenha.

Por esse motivo se salvaram os depósitos de algodão em bruto. Também a Casa da Turbina foi poupada pelo incêndio.

Os prejuízos que abrangem sobretudo a fiação, não deverão ser inferiores a 200 contos de réis”.

bombeiros da fabrica de fiação

Bombeiros da Real Fábrica de Fiação

Tomar, 1900

s/d – Colecção Antiga do Município

Arquivo Fotográfico Silva Magalhães

 

 

Reconhecendo a urgência de um serviço de bombeiros na cidade, a população deu início a uma série de iniciativas para que fosse criada uma corporação da cidade. Em 1902 são transferidas verbas para o Serviço de Incêndios Municipal e em 1917 é declarada a criação de uma Corporação de Bombeiros Voluntários. Existem registos nas actas da câmara sobre o pedido de uma sede e de diverso material. No entanto, é só dois anos mais tarde que surge a proposta para que o mesmo se faça no município, apresentada pelo vereador José de Campos Avelar. No Livro de Actas das Sessões de 1918-1919 descreve-se o teor da moção: “Sendo de toda a conveniência a criação de um corpo de bombeiros municipais, cuja utilidade se reconhece todas as vezes que há qualquer incêndio; atendendo a que tudo quanto seja melhorar ou beneficiar os munícipes está em harmonia com os princípios que a Câmara representa; atendendo, finalmente, a que semelhante instituição será também uma atenuante aos receios que nos invadem na ocasião de perigo; proponho que seja criado um corpo de bombeiros municipais e que para a compra do respectivo material se inclua nos orçamentos futuros a quantia que a Câmara julgar conveniente, e que se oficie às diversas companhias de seguros pedindo para que concorram com quaisquer subsídios, por isso que elas são igualmente interessadas”.

Dois anos mais tarde, em 1921, surge através do vereador Gonçalves Ribeiro a proposta de um Regulamento para o Corpo de Salvação Pública. O documento foi estudado por todos os envolvidos. A versão final foi aprovada a 7 de Dezembro do mesmo ano e enviada para a Comissão Executiva da autarquia. Não se lhe conhecem objecções e a 24 de Fevereiro de 1922 o documento foi aprovado na sessão do executivo. Em Setembro desse ano, os homens que farão parte da corporação recebem instrução por Amadeu Vieira da Silva, chefe de secção dos bombeiros do Porto. É durante a instrução, ainda em Setembro de 1922, que os bombeiros de Tomar têm o primeiro baptismo de fogo, num incêndio descrito como “pavoroso” e que atingiu uns prédios na Rua São João, no centro da cidade.

 Davam-se passos importantes para a criação do Corpo de Salvação Pública de Tomar, que só viria a ser apresentado publicamente numa sessão extraordinária solene agendada pela comissão executiva para Domingo, dia 28 de Janeiro de 1923 (e não 1922, como se acreditou durante vários anos).

 primeiro regulamento do corpo de salvação publica

Cópia da Acta de 28 de Janeiro de 1923,

da COMISSÃO EXECUTIVA DA CÂMARA MUNICIPAL DO CONCELHO DE TOMAR

copia da ata de 28 de janeiro de 1923

Transcrição da acta da sessão extraordinária da Comissão Executiva da Câmara Municipal do concelho de Tomar, realizada em 28 de Janeiro de 1923

Edifício dos Paços do Concelho 14h00

Presentes o Presidente

João Torres Pinheiro

E os Vereadores

António D’Almeida e Silva

Manuel Vieira

António Duarte Faustino

Dr. Pedro Augusto de Gouveia

José Gonçalves Ribeiro

Aberta a sessão o Senhor Presidente disse tê-la convocado para registar solenemente a apresentação da Corporação de Bombeiros Municipais que se encontravam presentes e que a Comissão Executiva da Câmara Municipal os recebia com a máxima satisfação e contentamento. Que estava assim satisfeita uma das aspirações de Tomar, devido à iniciativa da vereação transacta e principalmente aos esforços (…) 1 e persistentes do Vereador Senhor Gonçalves Pinheiro que por este facto é digno dos maiores louvores. Que os bombeiros têm uma grande missão a cumprir, ficam-lhes confiadas a defesa e salvação dos nossos haveres e das nossas vidas, (…)1 terríveis dos incêndios, é uma missão altruísta e humanitária. A Corporação de Bombeiros é composta de rapazes e de homens novos, todos cheios de vida e de boa vontade; a Câmara está convencida de que hão-de desempenhar-se sempre (…)1 missão com brio, coragem e dedicação, confiando que assim acontecerá; levantou um viva à Corporação de Bombeiros Municipais de Tomar, que foi calorosamente correspondido pelos colegas e pela numerosa assistência que enchia a sala. ================================================

Em seguida usou da palavra o vereador Senhor Gonçalves Ribeiro dizendo que como vereador do pelouro dos incêndios tinha a satisfação de apresentar o Corpo de Salvação Pública de Tomar. É um facto que reporta notável para a nossa terra por preencher uma falta que há muito se fazia sentir. O Corpo de Salvação Pública é composto de homens que saberão cumprir com o seu dever, nenhuma dúvida tem em o afirmar porque eles deram a maior prova de coragem e abnegação quando do pavoroso incêndio no dia dez de Setembro do ano findo, que enlutou a nossa terra, e aí portaram-se como heróis, (…)1 cada um o lugar mais difícil e mais perigoso. (…)1 falta de água, o elemento mais poderoso dos bombeiros e então, eles empregaram maiores esforços para localizar o incêndio, o que conseguiram a golpes de machado; este facto causou a admiração dentro dos bombeiros de Lisboa – que acidentalmente passavam por Tomar – e que admirando-se não acreditavam que os nossos bombeiros tivessem apenas dez dias de instrução. Dirigindo-se aos bombeiros disse-lhes: “Bombeiros municipais, desde hoje que pesa sobre os nossos bombeiros uma grande responsabilidade, mas temos a convicção de que sabereis cumprir com o vosso dever. No passeio que ides hoje dar pela cidade não é só para mostrar o brilho dos vossos lindos capacetes, mas também para afirmar do já existe na nossa terra, um corpo de bombeiros capaz de defender os haveres e as vidas dos seus habitantes. ==========

Depois o vereador Senhor Doutor Gouveia usou da palavra dizendo que elogiava os rapazes que voluntariamente se prestavam a arriscar a vida para bem de todos e incitando-os a cumprirem sempre (…)1 o seu dever para honrarem Corporação a que pertencem =================

========= Seguidamente pediu a palavra o Capitão Senhor Brak-Lamy como administrador do periódico “Ecos de Tomar” fazendo o elogio da vereação transacta pela criação do Corpo de Bombeiros e dizendo confiar na actual para serem levados a efeito os melhoramentos de que o concelho necessita. =======================================================

Por fim usou da palavra o vereador Senhor Manuel Vieira dizendo que tendo acabado de chegar fatigado da longa viagem lhe faltava disposição para usar da palavra, apesar disso não queria deixar de aproveitar esta reunião para saudar com todo o entusiasmo e (…)1 da sua admiração a essa plêiade de briosos rapazes, que hoje pela primeira vez se apresentavam em público, constituindo essa Corporação de Bombeiros, correspondendo a uma fortíssima aspiração de Tomar e tornando-se também mais dignos de apreço e simpatia (…)1. Era na verdade arriscada e cheia de perigos a árdua tarefa a que se vinham consagrar, unicamente para serem úteis ao próximo, tendo de estar por assim dizer sempre aberta ao primeiro sinal de alarme, dispostos a tudo sacrificar encaminhar para a morte por entre as labaredas das chamas e de nuvens espessas de fumo, para salvar os bens e a vida dos seus semelhantes! E porque  (…)1 rara abnegação e alto espírito de sacrifício lhes propunha o exemplo de São João de Deus e São Marçal (que as corporações congéneres têm por Padroeiro) os quais não temendo o incêndio porque os abrasava, o fogo ainda mais intenso (…)1; e lhes suscitava se inspirassem no sentimento religioso porque a religião era a melhor fonte de dedicação e heroísmo como tantas vezes se tinha evidenciado ainda há pouco na Grande Guerra. Por último, fazendo ardentes votos pelo progressismo da Corporação implorava as bênçãos de Deus para que havendo – se todos com denodo e heroísmo quando os seus serviços fossem reclamados (e permitisse Deus que nunca o fossem) pudessem bem merecer da sociedade, receber a mais consoladora de todas as recompensas nas lágrimas agradecidas dos salvos por sem esforço e experimentar a alegria indizível que nasce da consciência de sofrer para ser útil ao próximo.================================================================

Findos os discursos dos oradores indicados, o Senhor Presidente agradeceu a todos as referências feitas e encerrou a sessão levantando um novo viva à corporação de bombeiros, que igualmente foi entusiasticamente correspondido.

1Ilegível

O processo de criação e instalação do Corpo de Salvação Pública de Tomar finda apenas em 1923. Na altura já existia diverso material adquirido pela autarquia, muito com alguns anos de idade. Por exemplo, duas bombas manuais, uma tipo Flaut de 1865 e uma outra francesa do tipo Jardim de 1850, com mais de 50 anos. No inventário da época, surge material mais recente, como uma terceira bomba de caldeira manual de 1921, tipo Guilherme Gomes Fernandes, nome do famoso bombeiro português que em 1900 ganhou o primeiro prémio internacional da classe. O Corpo de Salvação de Tomar contava ainda com dois carros de tracção humana para transporte de material, um deles com escadas portuenses. E para finalizar, na torre sineira da Igreja de São João, soava o alarme para que os novos bombeiros de Tomar acorressem onde estava o perigo.

Na altura da sua criação, o C.S.P. de Tomar era formado por 18 homens: Silvério Ferreira Cotralha, Mário Pereira Prista, Amílcar da Graça, Jorge Godinho da Silva, António Vieira, Libânio da Graça, Henrique D. Faustino, António F. Gândara, Simão Nunes Sobrinho, Luiz Augusto Rosa, José Mina Júnior, Pedro Gregório da Silva, Gabriel da C. Santos, Armando Nunes, João da Silva, Bernardino D. Faustino, Filipe M. Cardoso e José Lourenço.

bombeiros de tomar afsm

Bombeiros Municipaes

Tomar, [1922 – 1934]

s/d – Colecção Antiga do Município

Arquivo Fotográfico Silva Magalhães

 

 

Ainda em 1923, a 17 de Abril, foram aprovados pela Câmara Municipal o estatuto e regulamento da Caixa de Socorros e Pensões, entretanto desaparecida devido à criação da Associação Cultural Desportiva e de Beneficência dos Bombeiros de Tomar.

As condições reduzidas de funcionamento dos bombeiros municipais mantêm-se, durante vários anos, no centro das preocupações autárquicas. Um dos principais responsáveis pela sua criação, o vereador Gonçalves Ribeiro, numa entrevista dada ao jornal “O Templário” em 1926, sublinha essas mesmas preocupações, e culpa as companhias de seguros e demais câmaras municipais pela falha no cumprimento da lei, que originava falhas no sistema. Na mesma entrevista também é anunciada a intenção de construir um novo quartel para os bombeiros, o que só viria a concretizar-se meio século depois. Mas mais importante, Gonçalves Ribeiro anuncia a instalação de canalização que permite distribuir a água pela cidade, passando esta a possuir um instrumento importante no combate aos incêndios. É ainda comunicada a compra de uma maca-ambulância.

entrevista do vereador jose gonçalves ribeiro

Entrevista do vereador Gonçalves Ribeiro ao jornal “O Templário” em 1926

Os anos seguem-se com a aquisição de mais material. Em 1929 são compradas duas moto-bombas Magirus, uma Danumbia e outra Liliput, umas escadas italianas e uma maca rodada.

Tomar ganha importância e vê esse empenho reconhecido com a realização do IV Congresso dos Bombeiros Portugueses na cidade, a 27 de Julho de 1934. Os encontros, realizados depois da fundação da Liga dos Bombeiros Portugueses, caracterizavam-se por um esforço de afirmação da Confederação dos Bombeiros. Com vista a cumprir este objectivo, é no congresso realizado em Tomar que se abre discussão sobre a necessidade de aprovar um Código de Manobras, que viesse a regular o modelo de instrução a ser adoptado nos quartéis de todo o país.

parada de bombeiros na varzea grande

Parada de Bombeiros na Várzea Grande

Tomar, 1934

s/d – Colecção Antiga do Município

Arquivo Fotográfico Silva Magalhães

 

 

O investimento da autarquia em material necessário à missão dos bombeiros continua. Em 1934 é adquirido o primeiro Auto Pronto-Socorro. Sucedem-se as compras: um veículo transformado em ambulância em 1944; uma viatura jeep e mais um pronto-socorro em 1956/57; mais um pronto-socorro e um carro nevoeiro e mais uma ambulância na década de 60; em 1970 os bombeiros de Tomar recebem uma ambulância oferecida pela Fundação Calouste Gulbenkian e compram mais um todo o terreno comparticipado pelo Conselho Nacional dos Serviços de Incêndios; em 1974 é adquirida uma auto-escada Renault com 32 metros, comparticipada pelo Serviço Nacional de Bombeiros. No mesmo ano é colocada em Tomar, pelo Serviço Nacional de Ambulâncias, uma ambulância de emergência, que mais tarde seria substituída por nova viatura do INEM (Instituto de Emergência Médica).

Bombeiros Municipais

Tomar, [1934]

s/d – Colecção Antiga do Município

Arquivo Fotográfico Silva Magalhães

O desgaste do material era também notado na muita correspondência das décadas de 50 e 60 que se pode encontrar no Arquivo Municipal de Tomar. A título de exemplo, a 31 de Dezembro de 1951, o então Comandante do Corpo de Salvação Pública de Tomar apelava por escrito ao presidente da câmara, para a necessidade de se trocar a auto-maca existente, devido ao seu mau estado e muitas reparações. Na missiva o comandante relata o facto da viatura ter ficado parada no caminho para Lisboa, a fim de transportar um doente que iria ser operado na capital. A avaria motivou um pedido de ajuda aos Bombeiros de Vila Franca de Xira, que acabaram por ter que transportar o doente para o seu destino. E a referida auto-maca ficava agora parada, à espera de substituto.

Carro dos Bombeiros Municipais

Tomar, [1934]

s/d – Colecção Antiga do Município

Arquivo Fotográfico Silva Magalhães

Os bombeiros de Tomar começaram por funcionar em instalações limitadas, situadas nas traseiras do edifício da edilidade. Só em Janeiro de 1932 foram transferidos para outras instalações provisórias, situadas na Rua Sacadura Cabral nº1 (junto à Várzea Pequena). Dois anos mais tarde, em Julho de 1934, o Quartel é mudado para a antiga Rua da Graça, hoje Avenida Cândido Madureira, onde está actualmente instalada a Misericórdia.

Em Novembro de 1954 é iniciado o processo para a construção do novo quartel, que já havia sido proposto pelo vereador Gonçalves Ribeiro na década de 20. A localização nos terrenos de Alfredo Fernandes foi aprovada na Câmara, mas só muitos anos mais tarde, a 3 de Outubro de 1971, é inaugurado o actual quartel, construído de raiz sob a responsabilidade de dois construtores tomarenses, Manuel Ribeiro e Fernando Graça.

O Quartel, situado na Rua de Santa Iria, já albergou o CDOS (Centro Distrital de Operações e Socorros) e a Inspecção Distrital de Bombeiros de Santarém. Entretanto sofreu ainda obras de adaptação e criação de camaratas e vestiários para permitir a integração de mulheres nos serviços operacionais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CRONOLOGIA HISTÓRICA DOS BOMBEIROS DE TOMAR

1842 Na consequência de um enorme incêndio ocorrido em Torres Novas, a Rainha D. Maria II, ordena a todas as câmaras que tomem providencias para combater o fogo.

1858 A câmara em colaboração com as companhias de seguros Fidelidade, Bonança e Companhia das Lezírias, pondera a aquisição de duas bombas de combate a incêndios.

1881 Criação do Corpo de Bombeiros Privativos da Real Fábrica da Fiação.

1883 (29 Agosto) Incêndio de grandes proporções destrói Fábrica da Fiação de Tomar.

Bombeiros da Real Fábrica de Fiação

Tomar, 1900

s/d – Colecção Antiga do Município

Arquivo Fotográfico Silva Magalhães

1917 Foi criada uma corporação de bombeiros voluntários, detentora de uma sede e de diverso material (casa, fardamentos, e a efectivação de um seguro). Mas tal diligência não viria a resultar com a eficiência pretendida.

1919 Surgimento de uma proposta do Vereador Avelar para a criação de uma corporação de bombeiros municipal em Tomar.

1920 Proposta de aquisição de uma bomba de incêndios, uma escada Magirus e mangueiras, o que foi apoiado por unanimidade por parte do executivo.

1921 O vereador Gonçalves Ribeiro apresenta o regulamento do corpo de salvação pública submetido à apreciação da comissão executiva a 24 de Fevereiro de 1922.

1923 A 28 de Janeiro, a Câmara Municipal de Tomar, presidida por João Torres Pinheiro, apresenta oficialmente em sessão solene o Corpo de Salvação Pública de Tomar. Este corpo de salvação, instruído por Amadeu Vieira da Silva, chefe da secção dos Bombeiros Municipais do Porto, teve o seu baptismo de fogo durante a fase de instrução a 3 de Setembro de 1922, num incêndio que deflagrou nuns edifícios situados num gaveto da rua de S. João.

Naquela altura o grande orgulho do corpo de salvação pública de Tomar era uma bomba de caldeira manual.

1924 (14 de Abril) O vereador Gonçalves Ribeiro, propôs (o que foi aceite) um voto de louvor e agradecimento a Emília Neves Torres Pinheiro e Felicidade Gomes Madureira, pela iniciativa que tomaram de promover uma subscrição para angariar donativos para a compra duma bandeira para o Corpo de Bombeiros Municipais.

1929 A Câmara Municipal, sob a presidência de Luís António Aparício, adquire duas moto-bombas Magirus, uma Danumbia e outra Liliput, uma maca rodada e outro material, onde se incluíam umas escadas italianas, acabando com algumas dificuldades então existentes, que passava por puxar os carros de incêndio pelas ruelas de empedrado irregular.

1932 O quartel, situado nas traseiras da Câmara Municipal, é transferido para a rua Sacadura Cabral, junto à Várzea Pequena.

Bombeiros em cortejo na Festa dos Tabuleiros

Tomar, 1934

s/d – Colecção Antiga do Município

Arquivo Fotográfico Silva Magalhães

1934 O quartel muda para a Rua da Graça, hoje AV. Cândido Madureira e onde se situa o actual edifício da Misericórdia.

 

1934 (27 de Julho) O IV Congresso dos Bombeiros Portugueses realiza-se em Tomar, ainda nesse ano foi adquirido o primeiro Auto Pronto-Socorro. Só passados dez anos se adquiriu uma outra viatura, esta por subscrição pública, que foi transformada em ambulância.

1956 A câmara sob a presidência de Fernando Marques de Oliveira adquiriu uma viatura Jeep e um pronto-socorro.

1960 a 1971 Foram adquiridas diversas viaturas para fazer face ao aumento da sinistralidade: um Pronto-socorro, um carro nevoeiro e uma Ambulância comparticipada pelos Serviços de Assistência.

1970  A Fundação Calouste Gulbenkian oferece uma ambulância e foi adquirido um Land-Rover, comparticipado pelo Conselho Nacional Dos Serviços de Incêndios.

1971 A 3 de Outubro foi inaugurado o actual quartel localizado na Rua de Santa Iria. O terreno foi cedido por Alfredo Fernandes e a construção deve-se, em particular, a dois construtores civis de Tomar, Manuel Ribeiro e Fernando Graça.

No início da década de 80 por iniciativa do jornal “Cidade de Tomar” e de J. Gonçalves Venâncio, efectuou-se uma homenagem aos bombeiros através de uma subscrição pública, à qual aderiram centenas de tomarenses. Consistiu na colocação em frente do quartel duma Estátua ao Bombeiro da autoria do Mestre Gustavo Teles de Faria. A estátua representa um Bombeiro na atitude de entregar uma criança salva num sinistro, usando o mesmo, um uniforme de “luta” onde se inclui um capacete com viseira.

Estórias da história

A falta de material para auxiliar os bombeiros na sua missão sempre foi uma das grandes preocupações de Tomar. Em 1946, em sequência da visita da Inspecção dos Serviços de Incêndios da Zona Sul, foi apresentado um relatório em reunião do executivo onde era apresentado o material que faltava à corporação nabantina.

Cópia de relatório

Documento existente no Arquivo Municipal de Tomar

A câmara municipal tentava dar resposta às faltas de material notadas no serviço de bombeiros, no entanto a escassez de verbas dificultava-lhe a missão. Na diversa correspondência encontrada no Arquivo Municipal de Tomar surgem, muitas vezes, cartas com pedidos pessoais do Presidente da Câmara Municipal, chamando a atenção dos responsáveis para as dificuldades financeiras que impediam o município de adquirir o material necessário.

Carta do Presidente da Câmara Municipal de Tomar em 1954

Documento existente no Arquivo Municipal de Tomar

A missão dos bombeiros não se limitava ao combate aos incêndios. Cabia-lhes também uma função social, patente neste relatório apresentado ao executivo, onde o comandante da corporação apelava para que se tivesse em atenção à situação de miséria vivida por três crianças na freguesia de Casais (Tomar).

Apelo ao município do Comandante da Corpo de Salvação Pública de Tomar em 1954

Documento existente no Arquivo Municipal de Tomar

Deliberação da Comissão Executiva da C.M.T.

Documento existente no Arquivo Municipal de Tomar

Os bombeiros eram muitas vezes chamados a auxiliar em situações de emergência em municípios vizinhos, serviço que era cobrado pelas câmaras municipais.

Definição dos toques de alerta da sirene dos bombeiros

Documento existente no Arquivo Municipal de Tomar

Os alertas para situações de emergência eram inicialmente feitos através da torre sineira da Igreja de São João. Só em 1961 foram definidos os toques de sirene: toque contínuo para sinistro na cidade aquém ponte; toques longos e repetidos para sinistro na cidade além ponte; toques curtos e repetidos para sinistro fora da cidade.

Folha de gratificações anual dos Bombeiros Municipais de Tomar

Documento existente no Arquivo Municipal de Tomar

Os homens que integravam o serviço de bombeiros beneficiavam de algumas regalias, sobretudo sociais. No documento abaixo, o comandante da corporação de Tomar lembra o executivo de que os bombeiros deveriam ter prioridade, conforme decidido anteriormente, na atribuição de casas do antigo Bairro de Salazar.

Carta do Comandante dos Bombeiros Municipais de Tomar ao município 1963

Documento existente no Arquivo Municipal de Tomar

A construção do novo quartel, inaugurado a 3 de Outubro de 1971, ficou marcada por alguma polémica relativa às contas que envolveram a sua implementação.

A edificação, sob responsabilidade de dois construtores tomarenses, passou por alguns momentos de desacordo com o município sobre o pagamento do material necessário. O processo só foi finalizado em 1974, tendo a câmara então aceite pagar todas as verbas ainda em falta.

Acordo inicial entre o município e os dois responsáveis pela construção do novo quartel 1968

        Documento existente no Arquivo Municipal de Tomar

Carta dos dois construtores ao município denunciando algumas falhas nas contas de construção do novo quartel 1971

        Documento existente no Arquivo Municipal de Tomar

Trabalho realizado para o Município de Tomar,  pela empresa Justo Realce, Lda – Comunicação e eventos – Tomar 2011

Anúncios